quarta-feira, 9 de junho de 2010

Sabedoria Bíblica: A aparência do Pregador

Postado por: O Criador & Criatura

Charles H. Spurgeon
Um bom cavalo não tem uma cor desagradável, e um pregador realmente bom pode vestir o que mais lhe agradar, pois ninguém vai dar importância a isso, mas apesar de não conhecermos o vinho pelo barril, uma boa aparência é uma carta de recomendação, mesmo para um lavrador. Os sábios não se apaixonam nem se desiludem à primeira vista, ainda assim a primeira impressão é sempre uma coisa importante mesmo para eles; o que dizer então em relação aos menos esclarecidos para quem, por não serem sábios, uma boa aparência representa meio caminho andado.

O que é boa aparência? Bem, não é ser pomposo e engomado, ou se fazer de grande e poderoso entre as pessoas, porque o orgulho põe a perder os corações, ao passo que as palavras gentis os cativam. Não é tampouco usar roupas finas; porque roupa extravagante é a mesma coisa que uma casa suja por dentro e com a entrada sem a limpeza adequada. Esse tipo de roupa é considerado a melhor parte em uma boneca. Quando um homem é vaidoso como um pavão, todo pomposo e exibido, ele precisa se converter antes de pregar para os outros. O pregador que mede a si mesmo pelo espelho, pode agradar algumas jovens tolas, mas nem Deus nem os homens se mantêm muito tempo com ele. O homem que deve sua grandeza ao seu alfaiate descobre que essa agulha e essa linha não conseguem manter um tolo no púlpito por muito tempo. Um cavalheiro deve ter mais em seu bolso que sobre os ombros, e um ministro deve ter mais a mostrar em seu interior que em sua aparência externa. Se pudesse, eu diria para os jovens pastores não preguem de luvas, porque os gatos não caçam ratos com luvas de boxe, e que não passem muita brilhantina no cabelo como fazem os vaidosos, porque ninguém se preocupa em ouvir a voz dos pavões; não tenham sempre em mente apenas sua bela aparência, ou ninguém mais se preocupa com vocês. Tirem os anéis de ouro, as correntes e as jóias; por que o púlpito deve se transformar em uma vitrine de jóias? Excluam para sempre as sobrepelizes e as batinas e todas essas vestimentas exageradas, os homens devem afastar de si as coisas infantis. Uma cruz nas costas representa o sinal do diabo no coração; os que fazem como Roma devem ir a Roma e mostrar suas credenciais de herdeiros. Se os padres supõem que conseguem o respeito dos homens honestos por causa da indumentária fina estão muito enganados, pois é voz corrente: “O hábito não faz o monge”, e: “O macaco não se parece tanto com um macaco como quando veste o manto papal”.

Entre nós reformistas, o pregador não reivindica poderes sacerdotais e, portanto não deve jamais usar uma vestimenta especial. Deixem os tolos usarem capuzes e hábitos tolos, pois os homens que não reivindicam a tolice não devem usar roupas desse tipo. Ninguém a não ser uma ovelha imbecil usaria a pele de um lobo. É um gosto estranho o que leva os homens a ansiarem pelos farrapos de um ladrão. Além disso, qual é o lado bom desse aparato espalhafatoso? Nenhuma criatura poderia parecer mais estúpida que um pregador reformista com um capuz que não tem utilidade nenhuma para ele, com exceção de um pato que use tamancos. Eu morro de rir quando vejo nossos doutores com toga e faixas, esbaforidos com suas roupas de seda, enfeitados com seus pequenos peitilhos, pois eles me lembram muito o nosso conhecido peru quando fica estufado com os temperos postos em seu interior. Com certeza, são muito tolas as pessoas que querem ver um homem vestido como mulher em vez de apreciar seu sermão; e aquele que não consegue pregar sem essa vestimenta espalhafatosa pode se achar um homem entre simplórios, mas é um simplório entre homens. Ao mesmo tempo, o pregador deve se esforçar, de acordo com seus recursos, para vestir-se de forma respeitável; e em relação à pureza, ele não deve ter máculas, pois os reis não devem ter homens de pés sujos junto de sua mesa; e aqueles que pregam as coisas de Deus devem praticar o asseio. Eu daria preferência às gravatas brancas, se elas fossem sempre brancas, porque marrom de sujeira não cabe em lugar nenhum. Podemos nos ver livres de um pároco relaxado, enfumaçado, aspirador de rapé, bebedor de cerveja? Muitos dos que encontrei talvez até tivessem muito boas maneiras, mas não lhes ocorria terem boas maneiras consigo mesmo havia muito tempo. Como um capitão holandês deixa as âncoras no mar, eles deixaram as boas maneiras em casa; mas esse jamais deve ser o argumento para tornar um pároco bem comportado em o ministro. Um paletó surrado não significa desonra, mesmo o mais simples deles pode estar bem apresentado, e os homens devem ser estudiosos, e não professores, até alcançar esse patamar. Não se pode julgar um cavalo pelo arreio; mas uma aparência modesta, distinta, em que a roupa é do tipo sobre a qual não se pode fazer comentário, parece-me ser o tipo certo de coisa.

Esse pequeno ponto de minha reflexão tem o objetivo de advertir vocês jovens que acabam de se iniciar no ministério; e se algum de vocês ficar bravo por causa desses comentários, terei de lembrá-los que cavalos com feridas no lombo não suportam ser escovados, e, de novo, “aqueles a quem a carapuça servir, vistam-se de João Lavrador”, vocês dirão que teria sido melhor remendar o próprio avental e deixar o pároco em paz, mas peço licença para cuidar de mim e falar o que me vem à mente, pois um gato pode mirar um rei, e um tolo pode dar bons conselhos ao homem sábio. Se eu falar com muita simplicidade, por favor, lembrem-se de que o cão velho não consegue mudar sua forma de latir, e aquele que por muito tempo foi acostumado a arar em um sulco reto também é muito competente para falar com honestidade.

Reproduzido pelo Projeto Spurgeon com permissão da Shedd Publicações – Sabedoria Bíblica: Conselhos simples para pessoas simples, de C.H. Spurgeon